• Alentejo, 10 anos depois

    December 10, 2018

    Alentejo , 1o anos depois.

    Carlos Sezões_2018Há 10 anos atrás, cerca de uma dezena de alentejanos, grupo no qual tenho a honra de me incluir, criou a Associação Alentejo de Excelência. O objectivo esteve claro desde o início. Quisemos, com entusiasmo e ambição, construir uma plataforma de reflexão e acção sobre a nossa Região. Sem recursos materiais ou financeiros, mas com muita participação cívica, empenho e ideias e juntando parceiros ao longo do nosso trajecto. A nossa agenda? Essencialmente, debater estratégias, com vista a facilitar consensos e influenciar decisões sobre as opções políticas para a região, promover o empreendedorismo e a inovação empresarial, ajudar a formar futuros líderes – que se assumam como o capital humano indispensável ao sucesso a região. A estas dimensões, passados uns anos, quisemos acrescentar uma outra vertente, com o apoio a projectos sociais que são, em si mesmos, exemplos de humanismo e solidariedade, valores para nós essenciais.

    Quisemos fazê-lo sem a habitual mistura de fatalismo, sentimento de inevitabilidade e falta de confiança nas nossas potencialidades enquanto região. Pelo contrário, quisemos sublinhar a consciência do nosso estado actual e também um conhecimento pleno das nossas diversas vantagens competitivas. Consolidar a consciência de que boa parte das soluções dependem de nós próprios, da nossa confiança e do nosso voluntarismo. Quisemos, desde sempre, afirmar o Alentejo pela positiva.

    O retrato da Região era, na altura, um misto de preocupação e esperança. Eram evidentes para todos a problemática desertificação e despovoamento do território; a existência de um tecido empresarial incipiente, com empresas de dimensão reduzida e frágeis estruturas de capitais, sem tradição de empreendedorismo e inovação, e muito centradas nos mercados locais e regional; os baixos níveis de formação e qualificações, comparados com a média nacional; o emprego ainda muito sustentado na agricultura, serviços sem grande valor acrescentado e sector público administrativo;  um desemprego estrutural elevado, com particular incidência na população feminina e nos jovens; e situações de exclusão social, nomeadamente nos meios rurais. A esperança provinha do crescimento dos anteriores 5 anos, a nível nacional e local, e de projectos-âncora para despoletar a criação de emprego e riqueza na região – dos quais, pela sua escala, o Alqueva nas suas dimensões agrícola, ambiental e turística, era o expoente máximo.

    A história raramente cumpre com as profecias em que alguns tentam, de forma antecipada, enquadrá-la. Estávamos, sem o saber na altura, na antecâmara da crise 2009-2013. Os anos seguintes foram duros para a região, com as consequências inerentes ao programa de assistência financeiro e o reajustamento efectuado. Sectores de actividade perderam a relevância passada e outros emergiram, quer em termos de riqueza quer de emprego. A engrenagem do mundo não parou e de um ciclo passámos para outro. Com desafios e variáveis diferentes para o nosso sucesso.

    Hoje, passados 10 anos da criação da Alentejo de Excelência, o Alentejo está diferente. Se pudesse usar apenas uma palavra para caracterizar esta diferença escolheria “Abertura”. Está, de facto, mais aberto ao mundo, mais cosmopolita e exposto (felizmente) ao que o mundo lhe pode dar. Está também a “dar mais” ao mundo, no que concerne à sua natureza, cultura, património e competências. O crescimento fantástico do turismo é, certamente, a dimensão mais visível desta abertura. Numa década, estima-se que o Alentejo tenha beneficiado do crescimento de cerca de 50% no número de visitantes e da duplicação das receitas, com uma diversificação crescente dos seus “produtos turísticos”, desde o património arquitectónico de Évora, passando pelo turismo rural até às praias da costa Alentejana.  Esta abertura manifesta-se também na atracção de investimentos em que o cluster aeronáutico, com empresas de relevo mundial, é o melhor exemplo. Na agricultura, a necessária mudança de paradigmas (de sequeiro e extensiva para um regadio intensivo) trouxe uma nova forma de exploração do mundo rural que, sendo mais tecnológica e sofisticada, aumenta a produtividade e permite que o Alentejo seja um caso de sucesso em domínios como azeite, vinhos, hortícolas, frutos secos, entre outros. E, acoplada a esta realidade, a crescente importância da agro-indústria. A promoção do empreendedorismo (de base tecnológica ou outra) permitiu a criação de inúmeras startups que, do Alentejo para o mundo, já dão cartas e reforçam a imagem da região. O próprio ensino superior da região, seguindo as tendências nacional e europeia, está também mais aberto, com uma proporção crescente de alunos e investigadores estrangeiros, que enriquecem a nossa produção de conhecimento.

    Naturalmente, que muitos dos desafios anteriores, não estão vencidos e são preocupantes. Destaco a crescente desertificação do mundo rural, de especial gravidade em vilas e aldeias do Alentejo profundo, que geram um ciclo vicioso de falta de oportunidades, incapacidade de retenção de pessoas e investimentos e, no final, fenómenos de pobreza e exclusão social para os que ficam.

    Dimensões-chave para o Alentejo dos próximos anos? Escolho duas. Primeiro, a capacidade de ser ainda mais atractivo: atrair pessoais, competências, investimentos, visitantes.  Depois, uma dimensão que devia unir os seus principais responsáveis: construir nesta região um ecossistema de excelência em matéria de educação, formação e qualificações. Numa economia baseada no conhecimento, esta deverá ser, sem qualquer dúvida, a aposta-chave da região.

    Deveríamos, pois, gerar um “consenso regional” nestas áreas, no qual agentes sociais e económicos – Empresas, Associações de Desenvolvimento Local, Agências de Desenvolvimento Regional, Instituições de Ensino, Fundações – e o poder político se empenhassem. Para que possamos trabalhamos as variáveis que estão ao nosso alcance para construir um Alentejo dinâmico, qualificado e que possa estar entre as regiões mais atractivas e de maior qualidade de vida da Europa.É a visão que deixo, pois não devemos ambicionar menos. Trabalhemos para lá chegar!

     

    Carlos Sezões

    Fundador da Associação Alentejo de Excelência

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