• Slow Food, porque importa dar tempo ao tempo…

    June 26, 2018

    victor lambertoSabe quantos quilómetros viajaram os alimentos que consome? De onde vieram? Como foram produzidos? Como chegaram ao seu prato? E que sabe quanto à sua sazonalidade?

    Perguntas simples e essenciais para o futuro do nosso planeta e que urge ter em consideração, pois é insustentável a situação actual, quando, do campo à mesa, a produção alimentar é responsável, por exemplo, por cerca de um terço das emissões de gases de efeito de estufa, tornando-a numa das causas principais das mudanças climáticas… E cada um de nós pode fazer a diferença, prestando mais atenção aos alimentos que diariamente escolhe, muitas vezes sem perceber… Como? Consumindo alimentos bons, limpos e justos, locais e sazonais.

    Pergunte a si mesmo: que alimentos cultivados localmente pela agricultura familiar chegam ao seu prato e qual a pegada ecológica da sua alimentação? Importa, portanto, ter presente a relação entre produção, consumo alimentar e mudanças climáticas.

    E comer alimentos produzidos localmente contribui de forma clara, mas amiúde ignorada, para uma melhor saúde, para o desenvolvimento local e muito mais: frescura, sabor e nutrição(produtos sazonais, colhidos na época da maturação e variedades adequadas ao local, não seleccionadas unicamente pela sua capacidade de suportar longos transportes); menor poluição(menor distância implica menos transporte e menos embalagens); maior conhecimento e controlosobre o que comemos e como é produzido (certificação por proximidade e tradição); sobrevivênciade métodos tradicionais e sustentáveis de produção, raças nativas, espécies e alimentos adequados à região; preservação e protecção da paisagem local e da ruralidade/regionalidade (atractividade turística). E também: soberania alimentar, ocupação do território rural, economia local(e.g. pequenos produtores e produtos incapazes de serem comercializados em grande escala), auto-estimadas comunidades rurais… Ou seja, a defesa da proximidade entre consumidores e produtores, assumindo-se o consumidor como um co-produtor, e promovendo o conceito de km 0 (quilómetro zero), que o Slow Food criou e que tem vindo a disseminar-se…

    Estas são algumas das muitas preocupações (e actuações) do Slow Food, associação internacional sem fins lucrativos mantida pelos seus associados e “facilitadora” de uma rede mundial empenhada em mudar a forma pela qual os alimentos são produzidos, distribuídos e consumidos actualmente. A rede consiste numa série de sub-redes concêntricas: mais de 100.000 membros em mais de 1.300 convivia(grupos autónomos locais/regionaisdo movimento), em cerca de 160 países, e entidades e organizações em todo o mundo, compartilhando os mesmos objectivos, os mesmos sonhos – um mundo em que todas as pessoas sejam capazes de apreciar um alimento bom para elas, bom para os produtores, bom para o meio ambiente… Ou seja, uma “nova gastronomia”, que envolva liberdade de escolha, educação, uma abordagem multidisciplinar em relação à comida que nos permita viver da melhor forma possível, utilizando os recursos ao nosso alcance, sustentável, sem desperdícios.

    E para alcançar estes objectivos, são muitas e diversificadas as actuações e estruturas deste movimento: Comunidades do Alimento; cozinheiros e Aliança Slow Food dos Cozinheiros; universidades e UNISG – Universidade de Ciências Gastronómicas (que já visitou o Alentejo em várias ocasiões); Slow Food Youth Network; Fundação Terra Madre; encontros internacionais e nacionais (e.g. Salone del Gusto e Terra Madre, Cheese, Slow Fish); Terra Madre Day; 1.000 Hortas em África; Fundação para a Biodiversidade, Arca do Gosto (e.g. pão alentejano, botifarra, vinho de talha, doce de escorcioneira) e Fortalezas; Mercados da Terra; educação alimentar e do gosto (e.g. alimentação diária, laboratórios do gosto, escolas, hortas escolares); associados (mais de 100.000) e convivia(mais de 1.300) em todo o mundo; comunicação (e.g. site, redes sociais, publicações, vídeos, Slow Food Editore); campanhas (e.g. “Menu de Mudanças – Coma Alimentos Locais”, “Não aos OGM”, Slow Fish, Slow Cheese/”Resistência queijeira”) e… passeios, visitas, artigos, palestras, intervenções, o km 0!

    Surgido em Itália em oposição à abertura de um estabelecimento de fast food no centro histórico de Romaem 1986, este movimento global pretende combater (mediante promoção da ecogastronomia, da biodiversidade, do prazer…) os efeitos da fast life e da fast food, os quais, sob a máscara da eficiência, homogeneízam o gosto e corroem a nossa vasta herança gastronómica e a nossa saúde. Afinal, um povo que defende os seus pratos defende o seu território” (Fialho de Almeida) e “os bons alimentos ligam-nos à natureza e aos nossos antepassados”…

    Face às pressões da sociedade moderna, onde o frenesim, o stress, a falta de tempo e o distanciamento aos espaços rurais tendem a crescer, o Slow Food contrapõe a desaceleração, a meditação, o convívio, a recuperação da qualidade de vida, o direito ao prazer… e os saberes e sabores testados pelo tempo, contribuindo para a saúde, a economia rural, o ambiente e a preservação da cultura gastronómica, ensinando a aprender, a reconhecer e a exigir alimentos que sejam bons, limpos e justos, locais e sazonais.

    Assim, o Slow Food pretende contribuir para a promoção da qualidade de vida, da sustentabilidade económica dos territórios e do meio ambiente, dos recursos endógenos, das comunidades locais e de um turismo slow, sempre na protecção do direito ao prazer, dos sabores e da vida calma, ao ar livre… desejando que a mesa junte, cada vez mais, pessoas que compartilham a convivialidade e a apreciação da arte de viver bem, a um ritmo mais lento e respeitando a tradição, o ambiente e o bem-estar animal, e combatendo a impaciência e o frenesim, os maus hábitos alimentares – “que o alimento seja o teu remédio“ (Hipócrates) – e a eterna Primavera nas prateleiras dos supermercados! Em suma, uma forma de estar que promove um outro olhar sobre o que sempre soubemos que era bom!

    E o Slow Food dirige-se a todos aqueles que se preocupam com a alimentação, nomeadamente com o seu impacte sobre o planeta Terra, as comunidades locais e os consumidores e restantes seres vivos. Congrega todo o tipo de pessoas (e.g. gastrónomos, curiosos, produtores), unidos na defesa da tradição, da qualidade (em detrimento da quantidade), da biodiversidade… contrapondo, à homogeneização do gosto, a desaceleração, a recuperação da qualidade de vida, o direito ao prazer, pois importa dar tempo ao tempo… dado que a velocidade é inimiga da perfeição, “para se ter uma vida longa é preciso viver devagar”(Cícero, numa versão primordial do “live fast, die young”) e “uma vida rápida é uma vida superficial”(Carlo Honoré)! E os princípios deste movimento global (cada vez mais um modo de viver!) têm vindo gradualmente a alastrar a outras áreas (e.g. slow school, slow medicine,slow fashion, slow cities, slow travel), nomeadamente em países tidos como mais desenvolvidos…

    Neste contexto, e como todos nós comemos e “somos o que comemos” (Ludwig Feuerbach), a enogastronomia é um meio fácil, convivial e prazenteiro de conhecer-se uma cultura, um território, as pessoas que o habitam e habitaram – “diz-me o que comes, dir-te-ei quem és” (Anthelme Brillat-Savarin)! Assim sendo, e além de outras actividades, o Slow Food Alentejo(antigo Slow Food Évora; desde 2001 na região transtagana transmitindo os princípios, preocupações e actuações do movimento) tem vindo a associar a enogastronomia à (re)descoberta da autenticidade alentejana, com a realização dos “Eat-inerários Slow @ Alentejo” (ancorados no trinómio terroirfood & wineslownesse nas pessoas), que têm dado a conhecer um outro Alentejoatravés de rotas lentas por paisagens com sabores autênticos degustados em espaços slow, respeitando os ritmos e ciclos da Natureza – dado que “há mais coisas na vida que o aumento da sua velocidade” (Mahatma Gandhi) e ”tempo não é dinheiro, é boa comida”…

    Por estas, e muitas outras razões, e enquanto regressarmos com mais algumas notas sobre o Slow Food, conheça este movimento (www.slowfood.com; www.facebook.com/slowfood.alentejo/) e envolva-se. Seja um consumidor esclarecido e faça a diferença! Abrande, siga os ritmos e ciclos da Natureza e seja feliz! Inicie uma revolução à mesa! A Terra-Mãe agradecerá e a sua vida será mais plena… pois “é inútil forçar os ritmos da vida, a arte de viver consiste em aprender a dar o devido tempo às coisas” (Carlo Petrini, fundador do Slow Food)…

     

    Victor Lamberto*

    *Gastronauta inquieto, membro do Slow Food (desde 1999; cria em 2001 o ConviviumÉvora, depois ConviviumAlentejo), engenheiro geólogo (1989; Universidade Nova de Lisboa e Birkbeck College of London), mestre em planeamento mineiro (IST, 1993), formador (desde 1997), especialista em geoturismo e slow travel, coordenador do projecto “Eat-inerários Slow @ Alentejo”, inveterado condutor de Renault 4…

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