• Évora é uma cidade acessível?

    November 8, 2016

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    Évora é uma cidade acessível?

    A uma pergunta complexa, não há resposta sem reflexão.

    O conceito de cidade acessível pressupõe ir além da vertente física abordando o território como espaço de construção social e promovendo práticas que evitem que a desvantagem física constitua um problema. Uma cidade que dá prioridade a pessoas está directamente a proporcionar uma melhor qualidade de vida para todos os cidadãos.

    Uma cidade empenhada na melhoria da Acessibilidade e Mobilidade tem uma estratégia de intervenção urbanística focada em práticas inclusivas estendidas a todos os cidadãos, sem excepção. Esta pequena introdução sustenta os alicerces da definição de Acessibilidade porém será necessário reflectir sobre a particularidade da nossa cidade. O centro histórico de Évora inclui o espaço urbano “entre muralhas”, com raízes que remontam ao Império Romano, estreitas ruas medievais e tantos outros vestígios arquitectónicos que constituem o legado dos vários povos que habitaram a região. Todos esses elementos que se mantiveram quase intactos com o passar dos anos, são o motivo pelo qual a nossa cidade é, desde 1986, Património Mundial UNESCO.

    É um território com dois mil anos de evolução e transformação urbana que por isso exige um particular cuidado na gestão de qualquer processo de regeneração ou requalificação.

    A questão da Acessibilidade faz parte da agenda da Câmara Municipal de Évora, que para além das intervenções já realizadas tem um Plano de Mobilidade que abrange a cidade entre muralhas. Há uma intenção de requalificação urbana, comprometida com a inclusividade, e pretendendo cumprir os requisitos inerentes à Acessibilidade. Exemplificando a uma pequena escala, a CME sempre que realiza uma obra na via pública faz um esforço para melhorar a Acessibilidade, na medida do possível e fazível. A restrição que limita por vezes uma maior ou mais visível intervenção prende-se ou com questões patrimoniais ou com a questão de indisponibilidade de recursos financeiros.

    Os melhoramentos elaborados ao longo destes últimos anos trouxeram inequivocamente uma melhor qualidade de vida a todos. Relembrando: a interdição do trânsito na Praça do Sertório que permitiu aos estabelecimentos comerciais ter esplanadas; a Rua 5 de Outubro, cujo piso permite o total conforto das todas pessoas no trajecto; a rampa de acesso aos paços do Concelho; e outros.

    Há também uma situação bastante adversa à questão da Acessibilidade e Mobilidade que não está vinculada a entidades governativas: a questão cívica com expressão nos direitos e nos deveres de todos indivíduos enquanto cidadãos. Para que serve uma passadeira elevada contínua com o passeio se há carros estacionados em cima dela, por exemplo? Para que serve um lugar de estacionamento para uma pessoa com deficiência se é ocupado por outro, nem que sejam só aqueles cinco minutos? Para que servem os parques de estacionamento no exterior do centro histórico, se o estacionamento entre muralhas é mais cómodo e permite uma deslocação pedestre mais curta? Para que servirá o futuro percurso pedonal que atravessará a área da Porta da Lagoa à Avenida da República se não houver respeito entre os utilizadores?

    Évora tem uma cultura muito específica de vivenciar a cidade e usufruir do espaço público que necessita também de um plano de revitalização ao nível das mentalidades.

    Há claramente, dentro do conceito de Acessibilidade, um apelo óbvio a uma flagrante componente de sensibilização cívica. Tornar a cidade das pessoas e para as pessoas, em todos os sentidos, tem vantagens e permite um maior desenvolvimento urbano, social e cultural. Combater a desigualdade e evitar a segregação é um dever de todos. Conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. E respondendo à pergunta que deu mote a toda esta exposição, fica a resposta mais honesta: É importante unir esforços para que seja!

     

    Artigo de opinião de Raquel Silva, eborense, nascida m 1981. Licenciada em Estudos Portugueses pela FCSH e Criatividade Publicitária pela Restart, tem dedicado o último ano a projectos pessoais. Fundadora da página Évora: Cidade Criativa, pretende que a plataforma se desenvolva para além do Facebook e tem trabalhado nesse sentido.

    Crédito Fotográfico: Ana Franco

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