• “Se podes olhar vê. Se podes ver, repara.”*

    June 30, 2012

    A crise económica e financeira existe. É um facto a que não podemos fugir. E convém que não o façamos – fugir aos problemas nunca foi uma forma de solucioná-los.

    A crise moral, ética e social, também nos espreita e assombra. E tenho-me perguntado se saberemos lidar com ela, já que no campo dos valores não há Troika que nos salve, se não soubermos salvar-nos a nós próprios…

    No final de Maio decorreu mais uma campanha do Banco Alimentar contra a Fome e (aparte a indisponibilidade de participar na recolha, desta vez) foi com muito agrado que recebi, logo ao final da noite, a notícia de que se tinham ultrapassado os valores da campanha feita em Maio de 2011.

    Aprecio o gesto de quem dá um pouco do que tem, a quem tem menos. Eu mesma tento participar em várias iniciativas e incentivo outros a que o façam. A questão é que não podemos ficar por aí.

    As pessoas não têm fome só duas vezes por ano, as crianças não gostam de festas e atenção só no Natal, os idosos sentem-se sozinhos muitas vezes. E será que nós, além das campanhas pontuais (e ainda bem que elas existem!), nos lembramos destas situações no dia-a-dia? Ou melhor, será que nos apercebemos que estas realidades existem, muitas vezes na porta ao lado?

    Quando a comida me sobra no prato, quando a roupa não cabe no armário, quando passo horas em frente a um jogo de computador, quando tenho mais telemóveis do que mãos e ouvidos para atendê-los, quando tenho tudo… será que me sobra tempo para reparar que há, cada vez mais, quem tenha tão pouco?

    A crise está a tornar-nos mais fechados, desconfiados e egocêntricos, por isso tenho dúvidas se estaremos a trabalhar no sentido de fomentar uma sociedade (mais) solidária, ou se muitos de nós damos, participamos e partilhamos com o objectivo de servir os nossos próprios interesses – pessoais e/ou profissionais.

    A solidariedade passa pela atenção ao outro, no anonimato, sem esperar aplausos e sem obter nada em troca. E é por isso que me parece que as coisas não estão a correr da melhor forma.

    Acredito que as nossas acções nos definem, muito mais do que as nossas palavras e o nosso pensamento, e tenho a certeza que quem dá, de forma desinteressada, fica sempre mais rico do que quem recebe. A questão então é: o que nos motiva para a solidariedade e para o voluntariado?

    Se tenho motivações centradas apenas em mim (o meu reconhecimento entre os pares, a minha promoção no trabalho, o meu bem-estar), pode ser um ponto de partida, mas é pouco. É preciso que eu consiga abstrair-me de mim, que me centre no outro e lhe dê atenção, que por sinal é uma coisa que não se compra – e como tal não traz custos associados.

    Confesso que me preocupa a apatia, o conformismo, o comodismo dos jovens e da sociedade em geral. Preocupa-me a postura de quem critica, fica à espera e não age. Mas tenho confiança na enorme capacidade de transformação do ser humano, e espero que consigamos agarrar esta oportunidade de mudar com a crise. Mudar mentalidades, posturas, formas de estar e de viver.

    Todos podemos ser agentes de mudança. Não podemos mudar o mundo sozinhos, não conseguimos mudar o país facilmente. Mas podemos começar a olhar para tudo o que nos rodeia e agir, fazer diferente e fazer melhor.

    Ficar no sofá até pode ser mais confortável, mas o gozo que se tira quando nos envolvemos numa causa, esse não tem comparação possível!

     

    *Marc Augé, Livro dos Pensamentos

     

    Helena Tirapicos da Rosa

    Membro da Direcção da Associação Alentejo de Excelência

     

     

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